Categorias
Irlanda
No post anterior, contei um pouco do que se passou dentro de mim nesse período de Irlanda. Agora vamos ao que importa. O que aconteceu depois de pensar: putz, e agora! O dinheiro está acabando: hora de remarcar a passagem?
Isso foi lá em fevereiro, um pouco antes dos três meses e da minha última parcela do Seguro Desemprego, fato que me segurou mais tempo sem um ganha pão real por aqui.
O que fazer? Voltar pra casa? Era um opção, mas claramente a última. Depois de gastar tempo e dinheiro eu não poderia simplesmente voltar três meses depois. Tinha que conseguir emprego.
Aí mora a vantagem de ser mulher. Au Pair na Irlanda é muito comum. As famílias estão sempre procurando. Pensava nisso como uma possibilidade, mas como a última já que havia desistido de tentar o programa de Au Pair nos EUA por quer ter mais independência e não precisar morar na casa de ninguém. Porém, ah, porém, essa acabou se mostrando uma boa alternativa por não ter que arcar com as contas do dia-a-dia: comida, luz, internet e aluguel.
Existe aqui na Irlanda uma espécie de agência de Au Pair para meninas brasileiras. Que nada mais é do que uma outra brasileira que arruma entrevistas e cobra a pequena taxa de 200 euros pra colocação numa família. O dinheiro só é pago quando a família está certa. Pra quem está no desespero é uma boa alternativa. Eu tentei por esse meio e fiz algumas entrevistas. Nenhuma com sucesso.
Indicação é tudo nessa vida. Em terras estrangeiras, então. Melhor ainda. Denise, minha colega de aula era (ainda é) au pair em Shankill, uma village perto de Bray, e me disse que sua vizinha estava precisando de alguém e tal.
No dia 17 de fevereiro, fui conhecer a família e acabei sendo ‘contratada’. Isso foi numa quinta-feira. A mudança aconteceria no domingo e a partir de segunda-feira já estaria trabalhando.
Minha atual casa na Irlanda
Confesso que o meu sentimento não foi nem um pouco parecido com o que eu espera. Poxa, eu tinha conseguido um emprego e não estava feliz. Na verdade me senti bem aflita, com medo mesmo. Ir morar na casa de outra família, um pouco longe da cidade e o salário era abaixo do normal para a ‘categoria’. No entanto, minha situação financeira na Irlanda não me permitia escolher não aceitar o trabalho, apesar de toda a indecisão.
O primeiro dia foi o pior. Eu tinha vontade de pegar minhas coisas e correr de volta pra casa, no Brasil. Tanto era meu sofrimento que chorei quando falei com a família por skype. Foi a primeira vez. E um erro, certamente. Só deixei todo mundo preocupado. Minha afilhada, pobrezinha, ficou chorando desesperadamente.
Minha mãe disse pra eu aguentar firme, ficar e continuar procurando outras coisas e voltar pra casa no fim do curso, em junho.
No segundo dia, as coisas ainda estavam ruins. Só que desta vez eu queria sair da casa e voltar pro ap onde eu estava antes. Não ir embora da Irlanda de vez. Aí o dia foi chegando ao fim e as coisas se ajeitaram. Fui acostumando e quando vi fiz um mês, dois e agora já são três.
Obviamente tiveram dificuldades. Ainda tem. No início, a menina me odiava, era grossa. Imaginem, uma pirralinha de 4 anos te tratando mal? Não é fácil. Isso melhorou também. Um dia, do nada, ela vem no meu quarto, me abraça e diz que me ama. Own….
O menino, mais velho, foi mais fácil. Exceto claro, como quase todos os meninos de 9 anos, tem um sério problema em ouvir. Às vezes é inútil falar. O momento do homework é o mais estressante, já que ele se distrai facilmente com qualquer coisa.
No fim das contas, tudo se ajeitou e ficaria nessa família até novembro, quando for a hora de voltar pra casa. Obviamente, quero arrumar outras coisas, novas experiências, mais dindim. Porém, não posso negar que é um constante aprendizado conviver numa família que não é a tua. E mesmo o dinheiro sendo pouco fui pra Londres encontrar minha BFF Gisele Ramos e estou indo na próxima semana pra Paris. São duas grandes realizações, isso não tem como negar. Também não posso mentir, parte do dinheiro usado nessas viagens foi presente de aniversário que minha família mandou. E não tirando meus méritos, devo dizer que, a administração dos ‘recursos’ não é nada fácil, mas estou conseguindo lidar com certo sucesso.
E não, não vou voltar pra casa agora em junho. Ainda não tenho a data, pois preciso remarcar minha passagem – outra pequena novela, mas será pra novembro, de acordo com o plano inicial.
…Ou 6 meses.
Minha jornada chegou na metade.
Olhando pra frente, sempre
Já quis desesperadamente entrar no primeiro avião de volta pra casa. Mas fiquei. E desde então tenho uma companheira fixa: a saudade. E ela sabe ser absurda. Tem dias que fica me falando da luz que entrava pela janela da cozinha da minha casa ao entardecer. Mas quase sempre ela está ali pra lembrar que no fim da jornada, as pessoas que mais amo no mundo estarão me esperando de braços abertos. E por isso continuo.
Falando assim até parece que estou reclusa em algum convento ou prisão. Não, nada disso. Vim pra cá por uma opção. Mais. Por um desejo, algo muito maior que eu. Um sonho alimentado dia-a-dia nos últimos sei lá quantos anos da minha vida.
E quando se está assim, tão longe de tudo, fica difícil associar o que acontece com vida real. Mas a verdade é que essa intensidade de acontecimentos e sentimentos é o verdadeiro intercâmbio. Emprego, compras, viagens, aperfeiçoamento da língua, isso tudo que se espera ao reservar as passagens acabou sendo lento e longe daquilo que eu esperava. Mas o crescimento pessoal caminha a passos largos todos os dias.
E essa é a verdadeira intenção do intercâmbio – isso claro, considerando o intercâmbio como algo com vontade própria. Porque acredito que ninguém que passe por uma experiência dessa saia indiferente. Sem mudanças. Saímos daquele casulo de conforto e tranquilidade que é a nossa casa e de repente estamos no mundo. Sozinhos. Metaforicamente falando, claro. Pois, por mais que estejamos acompanhados ou conheçamos boas pessoas ao longo do caminho, a vivência, a moral da história da fábula do intercambista é diferente para cada um de nós.
É como a eterna pergunta do jornalismo sobre a parcialidade. Cada um verá um lado e terá uma história diferente pra contar. Um perspectiva, um aprendizado. E é por isso que sigo em frente, esperando meus próximos 181 dias. Pra crescer e transformar os perrengues, as dúvidas, os conflitos e tudo mais que acontecer em boas histórias de vida.
Uma amiga minha disse, num momento em que eu estava em dúvida em relação ao que fazer:
Quem sai de casa pra morar em outro país não está querendo aprender outra língua. Essa pessoa procura muito mais que simplesmente isso.
E ela tem toda a razão. A minha jornada ainda não acabou, mesmo tendo passado por momentos difíceis e de indecisão.
E já que estou na Irlanda, não custa parafrasear o U2:
I still haven’t found what I’m looking for
Fiz quatro meses de Irlanda bem no dia de St. Patrick, dia 17 de março. O santo é padroeiro do país, então a galera se veste de verde e vai pra rua beber. Com direito a parada e tudo. A melhor definição que ouvi para o que acontece no dia foi “Carnaval de Tim Burton”
Também cheguei a uma conclusão. Irlandês não sabe se divertir. Só sabem ficar bêbado. E pra muitos sei que é sinônimo de diversão, mas gente, nem uma musiquinha na rua rolava. Os pubs tinham música ao vivo, em geral de boa qualidade, mas as pessoas nem dançavam. Só bebiam. Enfim, um tipo diferente de ‘carnaval’, realmente. Nem muita pegação eu vi.
Mas vamos aos 4 meses longe de casa.
Vai uma pint aí?
A primeira semana foi a das novidades. As descobertas num país diferente. Assim como foi a semana das dúvidas. “O que eu estou fazendo aqui?”, me perguntava frequentemente.
Aí depois foi levando, as coisas rolando. Ainda muita novidade. Sem uma rotina definida. Afinal era correria atrás da documentação, casa e claro a preocupação com o emprego. O mais importante, diga-se de passagem. Por que se por um lado a comida é barata, por outro o aluguel e a luz contas bem salgadas e pesam muito no bolso. A internet, o supérfluo mais essencial, é relativamente barata quando dividida.
Aí veio a primeira neve. Que maravilha! Lindo, lindo. Aquela sensação de voltar a ser criança, de experimentar algo pela primeira vez. Um bando de adultos brincando na neve. Andar, no outro dia, na neve não foi tão divertido. Quando a neve no chão ainda está fofa se leva uma eternidade pra ir de um lugar a outro. Quando o gelo está derretendo vira uma pista de patinação. São tombos e escorregadas que não acabam mais.
Ainda consegui sair dessa com um saldo positivo. Só cai uma vez. Sim, por que sem gelo eu vivo caindo
Aí veio o primeiro Natal sem a família e o An0-Novo sem fogos de artifício.
Depois do Ano-Novo a busca por emprego se intensificou. Consegui duas míseras entrevistas. Duas roubadas (assunto pra outro post).
E foi quando fevereiro chegou que a preocupação maior veio. O dinheiro está de fato acabando. Só tinha grana pra mais o aluguel a ser pago em 25 de fevereiro.
*Comecei a escreve este texto e nunca terminei. Estou prestes a completar seis meses de Irlanda, mas resolvi publicar ele assim mesmo, incompleto, pra não perder a ideia. Na sequência, no post de 6 meses conto o que aconteceu depois de fevereiro
Mas, como devem ter percebido, consegui um emprego e não tive que voltar pra casa antes do esperado.